Com quase trinta anos de carreira, Neyl Rivero Vieira Junior aprendeu que ter paciência é fundamental. Em entrevista ao Radar Decoração, ele conta as dificuldades e o prazer de trabalhar com arquitetura e fala sobre sua busca por soluções simples e humanas: “Sou apaixonado pela simplicidade das coisas belas”.

R.D: Por que você escolheu essa profissão?
N.R: Sempre gostei muito de desenhar e criar, então foi natural que escolhesse uma área em que eu pudesse trabalhar com as duas coisas. Lembro que aos 7 anos, em uma reforma em minha casa, foram colocar piso de taco de madeira e o colocador sofreu comigo, porque eu escondia os tacos para brincar de montar prédios.

R.D: Como você define seu estilo e como foi o caminho que percorreu para desenvolvê-­‐lo?
N.R: A arquitetura contemporânea e suas diversas correntes, como a arquitetura moderna com uso de formas puras isoladas ou combinadas e a orgânica como elemento de complemento estão sempre presentes na minha arquitetura. Sou inquieto! Gosto de soluções rápidas, procuro saber tecnicamente como tudo funciona embora seja extremamente detalhista. Se possível, gosto de planejar e executar os projetos do escritório. Um grande empresário, também arquiteto, com o qual tive o prazer de trabalhar, costumava falar que eu não era arquiteto, e sim um construtor renascentista: projetava, planejava, construía e, se necessário, pintava
até o quadro a ser colocado na  parede.

R.D: O que você considera essencial  em qualquer projeto de interiores?
N.R: Considero essencial entender o verdadeiro desejo de quem procura nosso escritório. O arquiteto tem que ser o intermediador entre o sonho do cliente e a realização deste. Ao elaborar o  projeto, além da preocupação com a forma, a harmonia e o equilíbrio, o profissional precisa definir claramente o conceito do projeto. Ou seja, definir aquilo que ele realmente anseia daquele espaço. Se esse conceito não for bem traçado, o projeto corre o risco de ficar mais próximo do gosto do arquiteto,  e não do cliente. É como mandar um presente maravilhoso para uma pessoa errada.

R.D: Qual a importância de  materiais sustentáveis no seu trabalho?
N.R: Vejo a questão da sustentabilidade como algo que vai além da especificação de  materiais. É todo um conjunto de atitudes que vão além disso. Por exemplo, temos em andamento um escritório de uma pedreira, próxima a Itaguaí, realizado com medidas totalmente sustentáveis: aproveitamento de águas pluviais, energia solar, fachada ventilada, luminárias de Led, uso de  aparelhos de ar condicionado do tipo VRV, mobiliário, dentre outros. Este projeto vamos registrar na Plataforma LEED para a obtenção do selo LEED EB_OM, que é um selo de certificação internacional dado a projetos sustentáveis.

R.D: Quais são suas cores favoritas no décor?
N.R: Eu faço arquitetura de  interiores, embora a parte de decoração seja feita por outra arquiteta dentro do escritório. Nós acreditamos  que a escolha da cor no projeto é uma questão de conceito e da intenção deste. As  cores podem se opor, coexistir em harmonia ou brigarem entre si. Tudo depende da intenção do projeto. Procuro  definir primeiro o clima que quero para o espaço e a luz desejada. Lá no escritório, faço questão de que todos tenhamos a mente aberta para a escolha das cores. Como projetamos sempre em 3D, facilita muito perceber e testar as cores e os efeitos da luz no ambiente.

R.D: Forma, função ou emoção?
N.R: Emoção deriva do latim emovere, mover, motivação. A forma e a  função necessitam de emoção. A emoção é ingrediente básico para a forma e função em um projeto de arquitetura. Um bom projeto precisa de uma  boa pesquisa e de muita emoção.

R.D: Quais você acredita serem as  peculiaridades do mercado carioca? Qual  o papel ou importância do Rio dentro do mercado  brasileiro de arquitetura e decoração?
O que falta  nesse mercado?
N.R: A cidade do Rio é, pela sua beleza e dinamismo, um prato cheio para quem gosta da vida ao ar livre. Ela é convidativa e despojada. E a casa do carioca reflete essa vivência, incorporando esse ar casual. O Rio sempre foi uma referência no mercado brasileiro de arquitetura e decoração. As pessoas ainda precisam entender que na contratação de um arquiteto a economia da obra e o resultado final são muito melhores. Na parte da construção, o Rio sofre com a falta de mão de obra especializada e bem treinada para executar os projetos. Por esta razão, optamos por executar nossos projetos.

R.D: Qual seria a casa dos seus sonhos?
N.R: Pequena e aconchegante. A casa pequena te abraça, enquanto a casa grande requer muitos  braços para ser abraçada. A casa pequena possui uma escala mais humana que se transforma e se traduz em sensação de aconchego. Além disso, a simplicidade na solução do espaço também me encanta. Sou apaixonado pela simplicidade das coisas belas.

R.D: Qual o estilo da sua casa?  O que gosta de ter nela?
N.R: Minha esposa também é arquiteta e sócia no escritório. Nossa casa é a expressão de nossos gostos que, ainda que diferentes em certos pontos, conseguem coexistir de maneira complementar. Por exemplo, o sofá foi escolha dela. Ao ver o sofá, eu escolhi a mesa. Vendo a mesa, ela  escolheu uma poltrona. Assim fomos montando o espaço: cada um contribuindo com um pouco de si. E por ela trabalhar mais com decoração, a contribuição dela é sempre  maior e melhor. E eu sempre tenho alguma coleção. Atualmente estou colecionando lápis comprados em viagens que utilizo no escritório.

R.D: Que projetos entregou recentemente e  está fazendo atualmente? Algum que curte em  especial?
N.R: Recentemente entregamos um grande escritório para  uma empresa alemã no Centro, um Espaço Gourmet em uma cobertura e dois apartamentos na Barra. Atualmente, estamos desenvolvendo o projeto de um escritório, uma loja, uma casa no Recreio, dois apartamentos e uma igreja católica. Um projeto especial que curti fazer foi a reestruturação de uma área de lazer em um condomínio na Av. Lucio Costa. A obra será concluída até o final do ano e acredito que o resultado será muito interessante.

R.D: Quem são seus designers de mobiliário favoritos?
N.R: Gosto muito do Phillippe Starck, em especial do projeto que ele fez para o Hotel Fasano. Sergio Rodrigues e Renata Moura também.

R.D: Quantos anos de carreira e  qual o maior aprendizado  nesse tempo?
N.R: Formado  em 1985, trabalhei nos três primeiros anos na CNO-­‐Construtora Odebrecht, convivi com profissionais muito qualificados e tive um aprendizado fantástico na área de planejamento e projetos. Esse conhecimento busquei empregar tanto na execução das obras dos meus próprios projetos quanto no de outros arquitetos. Nossa profissão é  sensacional. Orojetar um espaço é o mais simples, mas colocar um ser humano completamente diferente de você em hábitos, cultura, desejos, expectativas e fazê-lo feliz dentro deste espaço… é fantástico! A paciência é o maior aprendizado destes anos: paciência para entender o cliente, paciência por muitas vezes não entender, paciência na ansiedade do cliente, paciência quando a ideia não vem, mas o prazo está correndo, enfim… Paciência! Aprendi que todo projeto e/ou obra tem prazo de validade. Ele tem que ter uma data limite para acabar.  É como um bolo: se passar do ponto queima e é stress, o que era belo já não é mais, o que era  barato não é mais,  e o cara gente boa que você era deixou de ser. Cumprir o prazo  é fundamental!

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