Duas matérias: desenhos que querem ser esculturas e pinturas com tinta preta e densa junto a tinta aguada e translúcida. A artista paulista, Célia Euvaldo, abriu ontem, dia 30, na Mul.ti.plo Espaço Arte,  a mostra “Duas Matérias” – com trabalhos inéditos e recentes.  São cerca de 8 desenhos realizados em 2016 e 8 pinturas, em óleo sobre tela,  da produção mais recente da artista, produzidas entre 2014 e 2017.  Os desenhos são colagens de papel preto pesado sobre papel japonês fino e leve. No processo da colagem, os papéis “trabalham”, enrugando, entortando.

“Essas colagens querem ser esculturas. Elas querem também inverter os ´papéis´, nos dois sentidos da palavra. O papel mais resistente, o mais firme, que normalmente seria o suporte, está por cima do mais fino. Mas o mais fino não é mero suporte, ele é um segundo elemento que acontece de estar embaixo do outro. Ou, melhor, não embaixo, em relação com o outro. E esse outro, o papel mais consistente, nem sempre respeita os limites daquele sobre o qual ele se apoia, ultrapassando-os. Um atua sobre o outro, eles se deformam, abaulam, enrugam nessa interação”, explica Célia Euvaldo.

 

Nas pinturas, a matéria da tinta a óleo preta, densa, estriada entra em relação com a tinta diluída, em colorido rebaixado. A primeira deixa evidentes em sua textura as direções variadas das pinceladas – uma região mais conturbada –, enquanto a parte lavada fornece uma indicação sutil da aplicação da tinta em uma só direção – momento mais silencioso da pintura. No contato entre as duas matérias há, às vezes, contaminação de uma pela outra, como um arrepio provocado pelo atrito entre elas. A configuração é repetitiva, com o preto denso quase sempre na parte de baixo, às vezes na lateral, como se lá estivesse para evitar que a matéria fluida se volatizasse, retendo-a com seu peso. Para que essas duas matérias se afirmem como coisas, partes da tela são deixadas sem pintar: cada uma tem sua configuração própria, o branco da tela que sobra funcionando como luz.  Confira nas fotos de Alan Miguel Gonçalves quem esteve por lá.