O caderno Ela trouxe em reportagem: “aos 26 anos, o arquiteto Chicô Gouveia foi apresentado ao escritor Gilberto Freyre, em Recife,
durante um almoço. Rolou uma boa conversa e muita empatia. De lá, a pedido de Freyre, foi recebido em Salvador pelo pintor e muralista Carlos Bastos. Nessa mesma viagem, passou também pelo ateliê do fotógrafo francês (brasileiro por adoção) Pierre Verger. Era simplesmente para pegar uma encomenda que deveria trazer para o Rio a pedido de seu cicerone. Na época, Chicô não tinha noção de quem era Verger e também não sabia que voltaria para casa marcado definitivamente pela brasilidade: — Cheguei num sobrado, subi três lances de escada e encontrei um velho muito magrinho, grisalho, vestido com uma túnica e falando francês. Era Pierre Verger. E eu não sabia. Achei um cara excêntrico, mas não tinha ideia da sua importância. Chicô, que é neto de  pernambucano, voltou ao Rio e pensou: ‘Alguma coisa estranha deve ter acontecido nessa viagem’. E aconteceu. Esses encontros determinaram definitivamente a sua trajetória. A partir de então, o carioquíssimo Chicô, nascido em Botafogo, mergulhou de vez e com prazer nas diferentes expressões da cultura brasileira. — Percebi que era um caminho. Cheguei no Rio e li um livro do Jorge Amado, autor que nunca tinha lido. Foi ‘Gabriela cravo e canela’. Aliás, tenho três autores que me fizeram olhar o Brasil: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Garcia Penteado. Comecei a ver o que somos: a mistura do branco, do negro e do índio. De saída, caí no negro. Tenho uma biblioteca enorme de arte africana. Passei a olhar o negro não com o olhar europeu, mas olhando a influência que ele tem no meu sangue. Encontrei um mundo novo para mim, o Brasil. De lá para cá, passei a procurar, a ler, a ver — conta. Chicô Gouveia mora numa casa, na Gávea, que entrega logo as suas paixões. As pinturas de Debret estão em almofadas e portas. Chacrinha e Carmen Miranda, a portuguesa mais brasileira de todos os tempos, ficam na estante. ‘Reinações  de Narizinho’ e outras obras de Monteiro Lobato têm um cantinho especial. Aliás, os livros estão por toda parte: prateleiras, armários, baús. A escada, que é toda de ferro, também abriga publicações sob os degraus. As obras são divididas por temas: Brasil, Portugal, arte  africana, Rio de Janeiro, estados brasileiros, Europa e por aí vai. Há revistas do quarto ao escritório, passando pelo banheiro. Ele já colecionou de soldadinhos de chumbo a cocares indígenas, que enfeitam um trecho da escada. Hoje, diz que parou de acumular: — Parei de comprar coisas. Agora, só compro o que tem a ver com o personagem Tintin. Até hoje, o meu lado criança é muito forte. Em 2011, Chicô e Paulo Reis abriram, na Garcia D’Ávila 196, a loja Olhar o Brasil. Apesar da fachada em estilo normando, é quase desnecessário explicar que tudo lá tem a ver com a cultura e a arquitetura brasileiras. De peças que exibem pinturas dos artistas viajantes do século XIX — como Debret e Rugendas — a itens inspirados na arquitetura moderna, passando por objetos que  reverenciam  as paisagens cariocas. São móveis, luminárias, almofadas, bandejas e jogos americanos, entre outros itens desenhados em seu escritório. E é sobre toda essa brasilidade que Chicô Gouveia vai falar durante a sua palestra na Casa do Saber O GLOBO, no próximo sábado, dia 31, às 10h30m”. Leia mais no jornal O Globo.

Fonte: O Globo/ Ela/ Reportagem: Jacqueline Costa/ 24/08/13