Formada em Direito, ela trabalhava na área quando se apaixonou pelo paisagismo e mergulhou fundo na profissão. E deu tão certo que em sua primeira participação no Casa Cor Rio, em 2011, Paula Bergamin assinou um dos ambientes mais elogiados da mostra e ganhou prêmio do jornal O Globo de melhor projeto paisagístico. Em entrevista ao Radar Decoração, ela fala da carreira e conta sobre os projetos em andamento em seu escritório.

 

RD: Como você entrou para o mundo do paisagismo?
P.B: É curioso, entrei no mundo do paisagismo como advogada fazendo a legalização de um condomínio em Angra, quando conheci o Renomado paisagista Fernando Chacel. Eu me encantei com ele e com seu conhecimento de ecologia, de botânica, com seu  gosto e bom senso e com toda a dinâmica que envolve o projeto de paisagismo, como a análise do terreno, da  paisagem do entorno, das influências da arquitetura e das vontades dos clientes. Mas a mudança mesmo foi só dois anos depois, numa viagem com a arquiteta Stela Luterbach, que me viu comprando livros de plantas e visitando hortos e jardins em Bali e comentou que o Chacel iria abrir um curso de paisagismo na universidade Veiga de Almeida. Na volta me inscrevi pensando num hobby, mas três meses depois deixei o escritório com minha sócia e me dediquei exclusivamente ao estudo do paisagismo. Ainda estudando tive oportunidade de fazer alguns projetos que me deram uma boa experiência e nao parei mais de trabalhar. Em 2004 abri minha empresa, a Ecogarden Paisagismo, que além dos projetos faz a execução e manutenção. No ano passado inauguramos a loja da Ecogarden em Angra com plantas e acessórios, permanecendo no Rio o escritório de projetos.

RD: Como você define seu estilo de trabalho e qual foi o caminho que percorreu para desenvolvê-lo?

P.B: Faço um jardim tropical contemporâneo, me preocupo em valorizar nossa flora nativa. Então, conforme os princípios da ecogênese, tento sempre usar 70% dessas espécies nos projetos. Com isso o jardim atrai a presença da fauna, especialmente dos pássaros, e ganha vida e movimento.


RD: De onde vêm as suas inspirações?

P.B: Minha maior inspiração é a natureza. Viajo muito para conhecer os biomas brasileiros e suas associações botânicas, lição do nosso maior paisagista, Roberto Burle Marx, de quem tive a honra de ser amiga por 14 anos. Ele e o Chacel, que foi meu meu grande mestre, exercem grande influência no meu trabalho. É muito importante conhecer os grandes nomes do passado e do presente e estar sempre se atualizando.


RD: Quais os projetos mais recentes que entregou?

P.B: No momento estou terminando a execução de dois projetos residenciais em ambientes muito diferentes do Rio de Janeiro, um na restinga da Barra da Tijuca e outro na mata da Gávea, ambos em fase de execução. Acabei de entregar uma cobertura na praia de Icaraí, em Niterói, que curti muito fazer. O trabalho em menor escala e mais arquitetônico exige o detalhamento de estruturas construídas e maior precisão. Projetei treliças, jardineiras, deck, piscina, escadas, painel verde, jardim sobre laje. E o plantio em frente ao mar e no 16º andar é igualmente um desafio. O resultado foi uma transformação total do espaço exterior, que deu uma leveza e tornou o ambiente bem mais aconchegante. Entreguei tambem o paisagismo da Casa Carandaí (leia mais) no Jardim Botânico.

 

RD: O que faz com que você curta mais um projeto?
P.B: Eu diria que quanto mais o cliente acredita nas ideias, mais eu me empolgo. E isso pode acontecer numa varanda, numa cobertura ou numa grande área.

 

RD: Algum projeto que sonha em fazer e nunca fez?
P.B: Apesar de já ter feito dois projetos na escala de Parque, foram para particulares. Gostaria de fazer um projeto para um espaço público que envolvesse recuperar uma área degradada. Isso seria o máximo.


RD: Quais você acredita serem as peculiaridades do mercado carioca? Qual o papel ou importância do Rio dentro do mercado brasileiro de paisagismo? O que falta nesse mercado?

P.B: O Rio é muito importante no cenário do paisagismo, é uma cidade que tem muitos espaços verdes e parques projetados pelo Burle Marx, como o Aterro do Flamengo, e pelo Chacel, como o Parque Mello Barreto, entre tantos outros. Mas sempre podemos melhorar. O plantio em canteiros e calçadas é meio desastroso. Os jardins das calçadas da Vieira Souto são muito ruins. Ali chega a haver canteiros tipo franceses, o cúmulo do mau gosto. Como a profissão ainda nao é regulamentada, há pessoas que se dizem paisagistas, mas infelizmente não têm conhecimento suficiente para exercer a profissão e isso é muito nocivo ao mercado.

 

RD: Como é a sua casa? O que você gosta de ter nela?
P.B: Eu moro em apartamento no Rio, mas em Angra tenho dois jardins, um em casa e outro na loja. Adoro as flores perenes, as nossas belas helicônias, bromélias, orquídeas, as trepadeiras. Quem resiste à sombra de um pergolado? Mas num projeto precisamos equilibrar com as massas verdes de philodendros, marantas, samambaias e as plantas que dão verticalidade: as árvores e as palmeiras. Eu adoro os elementos aquáticos o som e o visual da água são calmantes quase hipnotizantes. Na loja tenho um grande lago com peixes brasileiros e um espelho d’água com carpas. Em casa tenho dois laguinhos. A água atrai os pássaros e até garças aparecem pra pescar. Na loja muitas pessoas vão só pra passear, pra ver o lugar, o que me deixa muito feliz. Na minha casa vejo das janelas saíras, tiês-sangue, sabiás, pica-pau, varias espécies de beija-flores e até corujas. É uma festa de som e cores.

 

RD: Para você, o que um bom paisagista deve ter?
P.B: Um paisagista precisa ter conhecimento técnico em várias disciplinas, o paisagismo é multi-disciplinar. O paisagista não é um especialista, mas tem que entender botânica, solos, clima, geografia, topografia, composição, análise da paisagem, ecologia, pragas e doenças, elementos construtivos, materiais, alem das matérias de desenho e representação gráfica, isso tudo aliado a uma estética equilibrada e ao bom senso no domínio do espaço exterior.