O Rio de Janeiro teve o dia mais curto do ano na última sexta-feira, 21, com o início do inverno. Em contrapartida, em Nova York agora é verão e a “Moderna Brasileira: A Arte Viva de Roberto Burle Marx” assumiu o Jardim Botânico da cidade – e oferece uma rajada exuberante de modernismo tropical que vai impressionar qualquer um na selva de concreto.

Burle Marx, o maior paisagista do Brasil, tem estado em voga ultimamente. Há apenas três anos, o Museu Judaico apresentou uma retrospectiva de suas pinturas, tapeçarias, joias e desenhos para espaços verdes e vias públicas no Rio, em Brasília e até mesmo em Miami. Mas esse espetáculo não poderia oferecer o que ele faz: um jardim exuberante, cheio de fragrâncias, completo com numerosas plantas com flores e filodendros que o próprio Burle Marx identificou pela primeira vez.

Junto com Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, os grandes planejadores de Brasília, Burle Marx (1909-1994), é um dos maiores responsáveis por impressões utópicas do ambiente construído brasileiro, com suas superestruturas de concreto inclinado rodeado por profundos espaços verdes. O jardim (projetado por Raymond Jungles, um protegido de Burle Marx baseado em Miami), localizado no Bronx, distrito de Nova York, não reproduz um único projeto de Burle Marx, mas funde as assinaturas hortícolas de seus mais de 2.000 parques e jardins em uma espécie de ambiente ultra-tropical.

Uma sinuosa fita de concreto preto e branco, ecoando seu calçadão ao longo da praia de Copacabana, no Rio, leva você até as palmeiras em miniatura, as orelhas de elefante ornamentais caídas e as camas de plantas de chita. As flores e plantas são agrupadas em faixas monocromáticas brilhantes – púrpura ou verde, vermelho fulvo ou laranja de Princeton – que ondulam ao longo do passeio de concreto, uma tradução das pinturas abstratas que Burle Marx fez como materiais preparatórios. Na beira do jardim, uma fonte de imitação de concreto imita a abstração encurvada que esculpiu em baixo-relevo para o Banco Safra, em São Paulo, e gorgoleja água em um lago abaixo.

Elas ficam em vasos nos degraus e se aninham nas bandas cromáticas do jardim, enquanto ao lado da piscina do jardim de inverno há bromélias com flores cor de laranja ramificadas que perfuram folhas verdes amidosas. O catálogo identifica mais de 20 espécies que Burle Marx introduziu pela primeira vez à horticultura – como Alcantarea burle-marxii, cujas folhas do espécime aqui atingem a altura de uma criança de 10 anos.

Na biblioteca da instituição, você pode ver uma pequena exposição de pinturas e tapeçarias posteriores de Burle Marx, feitas principalmente durante o período militar brasileiro, de 1964-1985. Outro andar promete mostrar sua fabulosa casa carioca; serão oferecidas apenas algumas fotos e textos e, principalmente, a oportunidade para visitantes desenharem azulejos de cerâmica com marcadores azuis e post-its. E há uma exibição que destaca o envolvimento de um século de duração do Jardim Botânico com a conservação no Brasil, misturado com documentos das próprias explorações de Burle Marx. Uma foto desbotada de 1974 mostra-o na Amazônia, segurando uma bromélia recém-descoberta; em outros lugares você encontrará um grande pedaço de pau-brasil, a árvore que dá o nome ao país.