Ao completar 80 anos, o arquiteto Paulo Casé acaba de lançar um livro que reúne grande parte de sua trajetória profissional, “Paulo Casé 80 anos: vida, obra e pensamento”. Consagrado como um dos grandes nomes quando o tema é urbanismo carioca, ele adora falar (e criticar) da cidade onde estão a maior parte de suas obras. “A boa arquitetura tem o homem como princípio. Gosto de espaços feitos para o encontro, como os que existem em várias regiões da zona sul e também na zona norte. Já na Barra da Tijuca, o projeto de ocupação não privilegia esquinas, botequins, praças. É um bairro com prédios sem harmonia estética e qualidade arquitetônica”, apontou ele em recente entrevista. Hoje, com o escritório a pleno vapor, ele fala do que vem por aí: o projeto de reforma um prédio na avenida Rui Barbosa, que vai virar um hotel, a convite do empresário Eike Batista. Isso entre vários outros.  E aproveita para criticar os preparativos para que o Rio seja sede dos Jogos Olímpicos. “As exigências internacionais são desmedidas para países ainda em desenvolvimento”, afirma, em tom polêmico.

RD: Como você define uma boa arquitetura?
P.C.: É aquela em que o objeto arquitetônico se integra a um espaço específico e expressa um determinado tempo e época.

RD: Que projetos foram essenciais na sua trajetória?

P.C.: Todos, cada experiência faz parte de um processo de aperfeiçoamento de uma linguagem arquitetônica.

RD: Foi noticiado recentemente que você foi convidado para desenvolver o projeto de um hotel na avenida Rui Barbosa, para o empresário Eike Batista. O que acha que um hotel precisa ter em termos de estilo, design e arquitetura?
P.C.: O hotel na Rui Barbosa se constitui num projeto de reforma de uso de um prédio habitacional  existente,  cuja fachada procura manter uma arquitetura análoga à paisagem já consolidada ali há tempos. Esse cuidado de redesenhar o futuro de olho na memória visual da cidade é essencial para a boa arquitetura urbana.

RD: Que arquitetos inspiram seu trabalho? Que arquitetos você admira? E da nova geração, que nome você destacaria?
P.C.: Admiro todos os que exerceram a arquitetura a partir de conceito que coloca o homem como um ser particular. Não são muitos mas, por isto, se destacam como realizadores de obras representativas que fizeram e irão fazer parte da historia das civilizações.

RD: Recentemente, visitando o Brasil, o arquiteto inglês Richard Rogers comentou que os jogos Olímpicos devem representar uma grande oportunidade de repensar a cidade. E, no caso do Rio, de aproximar ricos e pobres, tornando essa convivência mais segura e harmônica. O que você acha que é essencial para o Rio se preparar para as Olimpíadas?
P.C. : Esta pergunta me faz pensar sobre o falado legado dos jogos Olímpicos. Será que evolução das cidades depende destes conclaves? Há um enorme equivoco nesta premissa. Veja o que aconteceu em Atenas, onde equipamentos milionários estão sem função, se não abandonados. As identidades internacionais fazem exigências desmedidas para países ainda em desenvolvimento. Por exemplo? Os 14 estádios e outros equipamentos a serem construídos com requintes que exigem verbas elevadas e, que, após os eventos se mostram espaços inviáveis de serem mantidos.  Estes recursos não poderiam ser aplicados diretamente na infraestrutura das cidades? O desenvolvimento urbano, a meu ver, depende mais de planos e gerenciamento competentes. Basta lembrar do notável exemplo de Curitiba.