“A tecnologia está avançando numa rapidez muito grande”, já dizia Nelson Leirner na ocasião da sua exposição A Nova Revolução Industrial, apresentada em 2018 na Galeria Silvia Cintra + Box4, no Rio de Janeiro.  A exposição tinha uma visão crítica, através do artesanal, sobre o uso desenfreado de tecnologia no cotidiano.   “Confesso que estou um tanto preguiçoso, quanto mais me movimento, mais me é satisfatório”, disse o artista em entrevista à Veja Rio na época da exposição,  já declarando necessidade de diminuir o rítmo,  pela dificuldade de mobilidade, que o levaram  fechar , em 2018, o ateliê no Jardim Botânico.

Há duas décadas radicado no Rio, Nelson Leirner nos deixou neste último sábado(7), vítima de um infarto, aos 88 anos. O corpo do artista paulistano será velado hoje (9),  na capela 7 do Memorial do Carmo, no Caju, no Rio de Janeiro.

Nascido em 1932, o pintor, desenhista, cenógrafo e professor, considerado um artista intermídia, era filho da escultura Felícia Leirner e do empresário Isaí Leirner, que ajudaram a fundar o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP).

Entre 1947 e 1952, estudou engenharia têxtil nos Estados Unidos, mas não concluiu o curso e passou a ter aulas de pintura com o espanhol Joan Ponç em 1956.

Leirner era conhecido por atitudes iconoclastas. Em 1967 mandou um porco empalhado para um salão de arte em Brasília, que foi aceito como uma obra artística. Anos depois, o bicho ainda circularia por mostras mundo afora.

Notório crítico das idiossincrasias do mundo da arte, Leirner havia fundado no ano anterior, ao lado de Wesley Duke Lee e de Geraldo de Barros, uma galeria alternativa, a Rex, voltada a expor o que consideravam de mais bizarro nesse universo. Num dos “happenings” que ali promoveram, doaram tudo o que estava exposto a quem passasse pela galeria.

Em 2011, em entrevista à Folha de S.Paulo, refletiu a respeito do status da arte em tempos de mercantilização. “Minha obra continua crítica, mas a crítica não funciona mais. Ela foi engolida, a sociedade aprendeu a consumir o artista. Não tem como criticar sendo consumido. Todos nós viramos marca registrada.”

Dois anos depois, em 2013, um contêiner com 20 obras suas que julgavam estar perdidas foi encontrado em Nova York. Elas haviam integrado uma mostra com trabalhos do artista feita por uma galeria que fechou as portas e que nunca haviam sido devolvidas.

As obras só foram descobertas por causa das gravações de um reality show, “Storage Wars”, que trata justamente de pessoas que compram contêineres esquecidos em armazéns americanos. Entre os trabalhos estavam fragmentos de uma versão da instalação “Bala Perdida”, que traz imagens de figuras religiosas cravadas de balas de revólver.