Um dos maiores nomes da arquitetura e decoração cariocas fala sobre seu estilo marcante e sobre o trabalho com olhar apaixonado para o Rio e para o Brasil. Em entrevista ao Radar Decoração,
Chicô Gouvêa conta sua história na profissão, fala sobre os projetos recentes e conta que sonha em fazer algo que marcasse a cidade.

 

RD: Como a arquitetura e a decoração surgiram na sua vida?
C.G: Desde criança brincava com blocos de construção, montava trens elétricos e gostava de tudo que se relacionava com montagem e construção. Já com 15 anos comecei a ver o q realmente queria e fiz um “Cientifíco de Arquitetura”, que existia no Colégio Rio de Janeiro, em que aprendíamos de jeito diferente do de hoje. Meu vestibular foi o último não unificado.

 

RD: Você tem um estilo marcante e de valorização do que é brasileiro. Qual foi o caminho que percorreu para chegar a esse estilo?
C.G: Minha família, pernambucana do lado materno, tinha na mesa uma referência regional, muita variedade, e o comer era uma coisa importante. Comecei a tomar gosto quando, aos 24 anos, fiz um projeto em Recife. Conheci Gilberto Freyre, fui para Salvador e daí tudo começou. Também sempre usei muito as cores. As pessoas têm dificuldade de tê-las em casa e uma das desculpas é que a cor forte mata um quadro, por exemplo. Tentei sempre argumentar, mas é muito difícil. Acabei de voltar de Paris e o Museu d´Orsay foi todo “repintado” e não tem um só local onde haja quadros que não esteja com cores fortes.

 

RD: O que te inspira no seu trabalho?
C.G: O olhar. O que vejo e o que guardo em mim.

 

RD: Quais os projetos mais recentes que entregou?
C.G: Nos dois últimos meses terminei quatro espaços gastronômicos: o Paradis, o Bretagne, o Venga em São Paulo e a Casa Carandaí, uma Deli do Janjão, com quem eu fiz o Garcia & Rodrigues. Entreguei também uma casa em Itaipava bastante grande e que considero um dos meus melhores projetos.

 

RD: Conte um pouco sobre os projetos que está fazendo atualmente. Tem algum que está curtindo especialmente?
C.G: No momento estou fazendo duas casas para um mesmo cliente, super diferentes, uma cobertura que tem uma integração muito bonita e terminando o Albamar. Estou também desenvolvendo vários projetos de móveis e de desenhos para minha loja, a “Olhar o Brasil”, que abrimos recentemente no Rio.

 

RD: E como surgiu a ideia de ter uma loja e o conceito da Olhar o Brasil?
C.G: Há 5 anos eu e Paulo Reis estávamos em Buenos Aires e vimos uma loja super refinada, em que um arquiteto reproduzia em peças imagens da cultura argentina. Pensamos por que não fazer o mesmo no Brasil? Veio uma Casa Cor em que trabalhei todo o espaço, uma sala de jantar, com côcos e o universo do Barroco. Até a louça e os talheres foram feitos a partir de desenhos nossos. Um pouco depois abrimos a loja de Itaipava e agora a do Rio. Temos como conceito a reprodução em vários objetos de todo o tipo de imagens que se relacionem com o visual do Brasil, suas cidades, sua cultura, suas festas populares, seu passado. Enfim, estamos criando um grande acervo do que é “Olhar o Brasil”. Em paralelo desenho móveis com detalhes que nos remetem ao mesmo “olhar”. Acabamos de fazer um site novo:  www.olharobrasil.com.br

 

RD: Algum projeto que sonha em fazer e nunca fez?
C.G: Sempre quis deixar uma marca no Rio, algo que ficasse.

 

RD: Quais você acredita serem as peculiaridades do mercado carioca? Qual o papel ou importância do Rio dentro do mercado brasileiro de decoração, arquitetura e paisagismo? O que falta nesse mercado?
C.G: O Rio se divide em duas cidades: o Rio de cá e a Barra da Tijuca. Agora estamos vendo este crescimento para o lado do Centro, do Porto. Quanto ao paisagismo temos que nos orgulhar do que foi o Burle Marx, com seu escritório aqui no Rio e que continua funcionando. Ele foi gênio e acho que todos os paisagistas usam o que ele fez.

 

RD: Como é a sua casa? O que você gosta de ter nela?
C.G: Minha casa é cheia de referências que consulto sempre. Tenho muitos livros, revistas e hoje posso dizer que tenho uma boa biblioteca com tudo o que se refere ao meu trabalho, principalmente livros sobre o Brasil. Adoro ter gente em casa, cozinho para as visitas e uso a casa por inteiro.

 

RD: Para você, o que um bom arquiteto deve ter?
C.G: Um bom arquiteto deve saber interpretar o desejo de quem o procura, não seguir moda, saber usar o que o mundo nos oferece de novo, de moderno e saber “brincar” com os espaços.