Convivendo com a arquitetura desde crianças, Andréa Menezes e Franklin Iriarte aprenderam a amar a profissão e a viver e trabalhar valorizando o jeito carioca de ser. “A elegância descontraída, sem ostentação e a beleza da simplicidade nos influenciam o tempo todo. É um absurdo valorizar tanto as coisas de fora, quando somos inspiração pro mundo todo e temos uma relação tão bacana entre os profissionais aqui no Rio”, afirmam. Em entrevista ao Radar Decoração, Franklin falou sobre carreira, projetos e estilo, mas não sem antes consultar sua parceira para “ver se ela concordava com os pontos principais”, como é de se esperar numa boa dupla.

RD: Porque vocês escolheram a arquitetura?

A.M e F.I: O contato com a arquitetura para nós dois começou muito cedo.  Nós costumamos brincar que vivemos desde crianças em contato com a arquitetura e interiores. A mãe da Andréa trabalhava com interiores. Já meus pais trabalhavam com arquitetura. Temos muitos arquitetos na família. Íamos treinando junto com nossos pais, brincando com maquetes, casas em planta baixa, boneca. Nunca pensamos em fazer outra coisa.

 

RD: Como foi a trajetória de vocês? Quando se cruzaram?

A.M e F.I: Nossa trajetória foi simples. Tivemos a sorte de trabalhar em escritórios que nos deram muita experiência durante nossa formação. A Andréa morava em Nova York e aproveitou para fazer um curso de interiores. Eu também tentava absorver conhecimentos variados. Trabalhei em escritório de paisagismo, design, engenharia… Nós nos encontramos pela primeira vez no escritório do (Luiz Paulo) Conde. Eu trabalhava lá e a Andréa foi enviada pelo departamento de Arquitetura da IBM para aprender a usar um programa específico. Éramos estagiários. Nós dois estudávamos na Santa Úrsula e nos transferimos no mesmo momento para o Bennett, onde começamos a ter mais contato.  Depois de alguns anos de formados, nos tornamos sócios.

 

RD: Como vocês definem o estilo dos trabalhos que fazem?

A.M e F.I: A gente tenta reproduzir o que a gente gosta, Procuramos fazer algo onde a gente gostaria de estar. Para isso, a maneira de carioca de ser nos influencia o tempo todo.

 

RD: O que vocês entendem como essa maneira carioca de ser? Como isso entra no trabalho de vocês?

A.M e F.I: Acho que é a elegância descontraída, sem ostentação, a beleza da simplicidade. Isso sempre nos orientou e colaborou para resultados limpos e despojados. A gente se identifica muito com essa identidade carioca, esse estilo praiano de viver. A Andréa veio de Recife e eu sou carioca, temos esse estilo.

 

RD: Quais as vantagens de trabalhar em dupla?

A.M e F.I: Com o tempo não sabemos mais como trabalhar de outra forma. Em dupla, adiantamos uma série de questões que seriam levantadas pelo cliente. A gente não se contenta com uma solução que atenda só um prisma. Isso nos obriga a atender um leque maior de exigências. São duas perspectivas diferentes analisando o mesmo trabalho, então acabamos tendo soluções mais abrangentes.

 

RD: Vocês costumam dividir o trabalho de alguma forma?

A.M e F.I: Sempre tem um cuidando mais de um projeto do que o outro, mas vemos e nos metemos em tudo o que o outro está fazendo. Fazemos todas as partes do processo, o que ajuda a evoluir em cada etapa, mas cada projeto tem um dos dois como maior responsável.

 

RD: Como se dão suas escolhas diante de tantas possibilidades? De onde tiram inspiração?

A.M e F.I: Depois de um tempo de carreira filtramos automaticamente o que interessa. Como temos uma afinidade muito grande, isso é mais simples. A inspiração vem de tudo. O arquiteto vive a arquitetura 24 horas por dia. Nosso trabalho é a interpretação que fazemos de tudo o que vemos e também da experiência do próprio cliente.

 

RD: Como vocês se informam sobre o mercado de decoração?

A.M e F.I: Isso mudou muito de uns tempos para cá. Depois de quase 15 anos de escritório, muita informação chega direto lá. A gente vive sempre absorvendo informação. Com a internet, não estamos mais restritos a viagens e livros, que sempre foram as principais fontes.

 

RD: Quais vocês acreditam serem as peculiaridades do mercado carioca? O que o Rio tem de melhor e o que falta nesse mercado?

A.M e F.I: O diferencial é a descontração de que falamos, é uma relação próxima entre as pessoas. O carioca tem a característica de não separar pessoal e profissional, o que achamos até mais sadio. Nós nos tornamos amigos das pessoas com quem trabalhamos. O que falta é pararmos de nos desvalorizar, subestimar e deixarmos de supervalorizar o que vem de fora. Essa falta de autoestima é um contra-senso, porque o mundo inteiro vê o rio como inspiração. É um absurdo valorizar tanto as coisas de fora, quando aqui temos uma relação tão bacana.

 

RD: Qual o estilo das casas de vocês? O que vocês gostam de ter nelas?

A.M e F.I: Simplicidade, conforto, traços retos. Sempre perseguimos uma arquitetura despojada. Gostamos de ter elementos pessoais, memória e história dos moradores em tudo que fazemos. Quando estamos fazendo um projeto, pensamos como gostaríamos de viver naquele lugar, como se fosse para nós mesmos. É um trabalho honesto, de não fazer pela cabeça do outro.

 

RD: Contem dos projetos que estão fazendo atualmente. Algum que estão curtindo em especial? Algum projeto que sonham em fazer e nunca fizeram?

A.M e F.I: Estamos viciados no projeto do apartamento do dono de uma loja de peças de design. Estamos ansiosos pela ambientação, porque sabemos que vai ser diferente, ousada. O projeto e a relação com ele são ótimos. Outro vício atual é um projeto grande, de arquitetura modular em grande escala. São soluções já aplicadas na Europa e nos procuraram para desenvolver isso aqui no Rio. É uma empresa especializada em construção modular para a qual estamos desenvolvendo novas possibilidades de aplicação desse tipo de estrutura. Esse ano será lançado um catálogo sobre esse trabalho. Quanto aos sonhos, o mercado é muito dinâmico e isso sempre muda. O que não é um sonho agora pode ser amanhã. Uma coisa que gostamos muito de fazer é pensar numa arquitetura de repetição, em franquias. Tivemos algumas experiências, como o Devassa e a Uncle K, com elaboração não só do projeto, mas da metodologia dele, e foi ótimo.

 

RD: E o maior aprendizado nesses quase 15 anos de escritório?

A.M e F.I: O maior aprendizado é que é importante fazer o que gosta. Se não gostar do que faz, acaba não fazendo feito. A dinâmica de aprendizado de lidar com pessoas diferentes o tempo todo é muito legal, faz com que não seja um trabalho monótono.