O designer tem uma ideia, desenha um produto, pensa em todos os detalhes, muitas vezes chega a fazer um protótipo que é sucesso, mas não consegue colocar no mercado. Provavelmente quem é do ramo conhece histórias como essa e sabe que muitos são os motivos dessa falta de articulação entre criação e produção. As arquitetas Maria Helena Torres e Cirlei Santos, por exemplo, ganharam o 1º lugar no Concurso “Design de Botequim” de 2008 com o Conjunto Pandeiro, de mesa e cadeiras inspiradas no instrumento, e nunca conseguiram que as peças fossem produzidas industrialmente. “A empresa que fez o protótipo tinha interesse em fabricar, mas o conjunto era complicado para a estrutura deles, que era pequena”, conta Maria Helena. O projeto chegou a ser exposto na Rio + Design em Milão, em 2009.

O mesmo aconteceu com o designer Bruno Trindade, que foi vencedor do Salão Design Casa Brasil 2009 e da 3ª mostra jovens designers 2010 com o Banco Vértil, mas não conseguiu colocar o produto à venda. “Estou trabalhando em cima dele no momento, fazendo algumas mudanças e espero que em breve ele saia do papel”, diz Bruno.

Algo que é consenso entre os designers entrevistados é a necessidade de pensar o projeto de forma que ele seja viável para a indústria ou para que o próprio criador possa produzi-lo.  “É uma parte inerente à profissão do designer. Temos que encarar isso com toda naturalidade possível, como parte do processo de criação. Não somos artistas livres, nossas criações têm que se adequar aos processos industriais”, afirma Bruno.

É o caso do dosador de espaguete criado por Pedro Braga e Marcelo Lobo e vencedor do Salão Design Casa Brasil 2011, cuja produção e comercialização está sendo feita pelo próprio Pedro. “O designer precisa entender de produção e correr atrás. Precisamos não ter a indústria como meio, mas como fim”, afirma Pedro, que está desenvolvendo também em parceria com Marcelo a gangorra Smile. “É um produto muito bacana, com bastante apelo estético e um sistema produtivo bem interessante. Vamos buscar parcerias com fábricas que estejam interessadas em fabricá-la. Esse é o objetivo principal. No entanto, se isso não acontecer em um primeiro momento, vamos iniciar as vendas sob encomenda, em uma escala produtiva menor”, explica Marcelo.

Foi pensando nessa situação que a Firjan lançou uma publicação do Senai Moda e Design, o Guia Visual da Indústria do Estado do Rio/ Mobiliário Baixada Fluminense. O guia é uma fonte de consulta para arquitetos, designers, estudantes e comerciantes sobre as indústrias, seus serviços e suas áreas de atuação e tem informações sobre os materiais, maquinário e os processos produtivos utilizados por estas empresas. “A ideia é aproximar o setor produtivo e o criativo e estamos fazendo outras ações desde 2008, como caravanas com estudantes para as indústrias de móveis”, conta Ana Paula Fonte, coordenadora de Design do sistema Firjan. Ela afirma haver uma defasagem tanto na formação dos designers, que saem da universidade sem conhecer o setor produtivo, quanto no setor industrial, que nem sempre entende que a existência do profissional de design é fundamental para a empresa.

No entanto, tanto Ana Paula quanto os profissionais vêem uma mudança na mentalidade das empresas, que cada vez mais incorporam o trabalho dos designers ao setor produtivo. “A indústria nacional começa a ver a importância de ter um produto com design, com mais qualidade em termos formais e funcionais”, afirma Pedro. Ele aponta também o fato de a profissão estar na moda como uma das dificuldades na hora de fechar parceria com as indústrias, já que “a oferta de profissionais é muito grande”. “Acho que os eventos de decoração, exposições e feiras de design têm dado ênfase ao assunto e isso é muito positivo”, complementa Marcelo.

Bruno também vê o design no Rio em um momento muito positivo. “O carioca é conhecido pela sua irreverência e criatividade e acredito que isso possa perfeitamente se aplicar ao design como um diferencial. Acho que se soubermos aproveitar esse momento, o Rio tem tudo para se firmar como uma das principais ou mesmo a principal capital criativa do mundo”, afirma.