Um arquiteto que fala de seu trabalho colocando-o em contexto com a História da Arte e da Arquitetura. Caco Borges, há 30 anos na profissão, mostra muito conhecimento sobre o que faz e afirma: “Arquitetura não é só construir prédio. Você tem que conhecer a história da humanidade”. Em entrevista ao Radar Decoração, Caco fala de sua trajetória, dos sonhos e ensina que qualquer que seja a profissão escolhida, a pessoa tem que gostar e se envolver. “O lado profissional não é uma coisa fria, também é parte da nossa vida”.

 

RD: Como surgiu a arquitetura na sua vida?
C.B: Eu escolhi a arquitetura porque tinha uma tendência. Sempre desenhei quando criança e tinha jeito para isso. Quando fiz vestibular achava que ia ser engenheiro. Não sabia muito bem o que era arquitetura e fiz vestibular para engenharia. Só aguentei três períodos. Eu viajava muito desde pequeno, porque minha mãe era do Itamaraty, então adquiri muito cedo uma cultura que tinha a ver com a profissão. Vi monumentos que me impressionaram muito. Arquitetura não é só construir prédio. Você tem que conhecer a história da humanidade. Quando deixei a engenharia, viajei de novo, voltei e fiz vestibular novamente. Passei para a Gama Filho, fiquei um período porque era longe da minha casa e  fui estudar no Bennet. Sempre gostei muito de caminhar, viajar. Faço muitos passeios. Se eu vou à Londres, por exemplo, passeio pelas cidades próximas. Tudo isso é um pouco do que foi formando minha natureza e fez com que eu me encontrasse na arquitetura.

RD: Então são esses passeios e viagens que te inspiram nos seus projetos?
C.B:  Tudo isso conta. Viagens, leituras, pesquisas em livros e coisas específicas de arquitetura. Monumento para mim não é só a Torre Eiffel, mas também o parque de Valência, o museu de Artes Naturais, do  Santiago Calatrava, o Instituto do Mundo Árabe, em Paris. Essas são coisas contemporâneas de que eu gosto, como o Gurk, prédio que fica na área financeira de Londres, famosíssimo. São essas coisas que me inspiram, são pesquisas, monumentos conhecidos e tudo o que eu acho bonito, coisas modernas e antigas se harmonizando nas ruas de Milão, por exemplo. Isso vem muito da busca por um conhecimento e até por um autoconhecimento.

RD: Você tem uma definição para o seu estilo de trabalho?
C.B: Eu tenho muito claro que meu estilo é clássico contemporâneo. Eu acho que com todo o conhecimento que vamos adquirindo, percebemos que o clássico é atemporal. Em Vicenza, onde o Andrea Palladio é responsável por  60% das obras, elas têm 500 anos e são super modernas. É algo atemporal. As vilas dele são coisas que se eu te mostrar, você diz que é do século XXI. É mais ou menos isso o que eu faço. Construo uma casa com pilares, cobertura. A estrutura é clássica. Eu acredito que nada existe de novo. As coisas reaparecem. Gosto da arquitetura do desconstrutivismo, cuja obra mais famosa é o Guggenheim, do Frank Gehry, que tem uma volumetria muito diferente, com espaços totalmente não alinhados

RD: E na decoração? Como se dão suas escolhas?
C.B: Não é diferente, porque desde que existem as pirâmides do Egito, também existem cadeiras. Há 4 mil anos existem colunas e existem cadeiras, tanto no Egito quanto na China, culturas que nem tinham contato. É tão complexo fazer um palácio quanto fazer uma cadeira. Fazer algo bem feito não é fácil. Eu estou dando exemplos de coisas que já vi e questionei. Quando você vê uma cadeira chinesa com mais de dois mil anos, você se questiona.

RD: Você costuma seguir os modismos?
C.B: Acho até interessante o modismo, mas é uma coisa descartável. Eu estou aberto para tudo, mas tenho uma tendência mais natural pra seguir uma coisa clássica.

RD: Diante de tantas fontes e possibilidades que temos atualmente, como você se informa?
C.B: Estou sempre pesquisando por vários meios. Gasto uma grana. Leio revistas específicas e outras mais abrangentes. Gosto de muitas, mas principalmente da Casa Claudia e da Casa Claudia Luxo, Casa Vogue, a Wish Casa, que eu tenho achado bem interessante, Bamboo, Elle Décor e muitas outras. Gosto muito de publicações inglesas. As exposições também me servem como fonte. O Casa Cor, por exemplo, eu frequento para ver as novidades, e não só pra ver se é bonito ou feio. Pretendo sempre trabalhar com coisas novas tendo como base coisas antigas. No Casa Cor desse ano priorizei o design brasileiro, que é de primeira linha, mas ao mesmo tempo usei um tapete de sisal, que é um clássico. Fiz uma base com um tapete que está há 40 ou 50 anos no mercado. E no teto estão as luminárias Big Bang, que são uma super novidade. Não existe radicalismo. Gosto de novidade, então vou mostrá-la, mas junto com coisas eternas.

RD: Como é a sua casa? O que você gosta de ter nela?
C.B: Na minha casa eu tenho a exteriorização da minha personalidade. É simples, não vivo com muita coisa, mas tem muitos livros, DVDs, fontes de informação, música e um telescópio, porque gosto de ver estrelas. Tende para o clássico. Meu desenho pessoal é uma coisa explicitamente clássica. Tem algumas obras de arte também.

RD: Como funciona o seu trabalho com as cores?
C.B: Cor para mim é emoção. Dependendo do que você sente, a cor pode influenciar. Quando eu trabalho para um cliente, tenho que interpretá-lo. Em mostras como o Casa Cor, o ambiente é muito parecido comigo. Tudo que eu aprendo reflete na minha casa e no meu trabalho. No Casa Cor fiz algo impactante como é aquele ambiente, muito detalhado e suntuoso. O hall da escada tem 9 metros. Eu trabalhei bem a volumetria e coloquei uma iluminação discreta. Em vez de um lustre, coloquei a cadeira. Arte em vez de lustre.

RD: Existe algum projeto que nunca fez e sonha em fazer?
C.B: Para mim nenhum é igual ao outro. Mesmo duas casas com a mesma planta, no mesmo prédio… porque as pessoas mudam. Talvez gostasse de fazer a casa de uma famosa, como a Kate Winslet, que é uma atriz que admiro muito e é linda. O arquiteto penetra na intimidade das pessoas e eu poderia ter esse contato com ela. Mas tudo para mim é uma surpresa. Gosto de tudo.

RD: Quais você acredita serem as peculiaridades do mercado carioca? O que tem de bom e de ruim no Rio?
C.B: Eu sou um carioca apaixonado pelo Rio. Sempre que estou fora, vejo o Rio com muito orgulho e amor sabendo que moro num dos lugares mais bonitos do mundo. O Rio é sensual e tem a beleza, que é cantada por Gil, Jorge Ben, Vinícius e tantos outros. O Rio tem a mulher que é o símbolo da beleza. Nós ditamos moda e a essência principal está no Rio. O que eu vejo de ruim é que a maneira como o Rio é administrado faz com que as coisas não funcionem como deveriam.

RD: Em 30 anos como arquiteto, qual é  maior lição que você aprendeu e pode passar para um iniciante, por exemplo?
C.B: Eu passei por escritórios e acho que na vida a gente tem que achar aquilo que vai servir para o nosso caminho profissional. O lado profissional não é uma coisa fria, também é parte da nossa vida. Se alguém vai fazer arquitetura, que se envolva, assim como em qualquer outra profissão. A arquitetura é um universo muito bonito. É um trabalho em que a beleza está presente. Você não pode só ficar preso ao curso. É importante se soltar do curso para não ficar duro e buscar outros caminhos de conhecimento. Também é preciso manter o contato com o lado prático, com o trabalho nos escritórios. Eu me formei em 1981 e trabalho desde 1977.