Igreja de São Francisco de Assis, Pampulha, Belo Horizonte, projeto de Oscar Niemeyer, c. 1945 Foto de Marcel Gautherot, acervo IMS

Em nove décadas, muito se pensou e se escreveu sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, seus artistas e suas obras. Aos poucos, o repúdio inicial foi dando lugar à celebração e à consagração definitiva do termo modernismo e de tudo o que foi ligado a ele. Com o objetivo de fazer um balanço sobre a influência modernista em diversas artes (literatura, música, artes plásticas e arquitetura), o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro organiza o curso Modernismo e Modernidades, que tem início no dia 23 de agosto. As aulas são sempre às quintas-feiras (duas por dia), das 19h às 21h, e vão até 20 de setembro. As inscrições devem ser feitas no IMS-RJ a partir do dia 2 de agosto. O curso foi concebido por Eucanaã Ferraz e Eduardo Coelho. No dia 13/09, o tema será a arquitetura. Confira a programação:

 

23/08 – LITERATURA

 

–  A brasilidade modernista, com Eduardo Jardim de Moraes (professor dos departamentos de Filosofia e de Letras da PUC–Rio).

Os principais pontos do ideário modernista, relativos à literatura e às artes em geral, foram tratados por Mário de Andrade. Será discutida a presença na obra do escritor de dois “tempos” do modernismo, nos anos 1920, cada um deles contendo uma visão do processo de modernização da cultura nacional: o primeiro defendeu uma solução “imediatista”, enquanto o segundo exigiu a definição dos traços específicos da cultura brasileira. Em seguida, será assinalada a concepção de Mário de Andrade do elemento nacional. Para o escritor, ele seria definido por uma via analítica, que operaria o recenseamento dos traços da cultura popular e folclórica. A esse respeito, serão abordados três temas: a especificidade das manifestações culturais brasileiras, o conceito de unidade cultural e o de tempo da brasilidade.

 

Capa de Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade, 1922 Acervo IMS, coleção Carlos Drummond de Andrade

 

– A poesia dos anos 1930: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, com Murilo Marcondes de Moura (professor de literatura brasileira da USP).

A aula focalizará o ano de 1930, data fundamental para a poesia brasileira, com a publicação de Libertinagem, primeiro livro propriamente modernista de Manuel Bandeira, e as estreias de Drummond (Alguma poesia) e Murilo Mendes (Poemas). Qual foi a novidade da poesia dos anos 1930 em relação ao momento anterior, à chamada fase heroica do modernismo brasileiro? Tomando por base tal questão, serão abordadas as obras desses três poetas, que sintetizaram o que a lírica brasileira pôde realizar de melhor, tanto no que diz respeito às exigências estéticas das vanguardas históricas, quanto ao impulso de participação nos problemas do mundo.

 

Capa de Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, de Oswald de Andrade Acervo IMS, coleção Carlos Drummond de Andrade

 

30/08 – MÚSICA

 

– Confrontos modernos: Carlos Gomes e Villa-Lobos, com Jorge Coli (professor livre-docente e titular de história da arte e da cultura na Unicamp).

Carlos Gomes e Villa-Lobos foram os dois compositores brasileiros que se projetaram solidamente no campo internacional. Ambos encarnaram um espírito brasileiro, tanto para seus compatriotas quanto para o público estrangeiro. A criação e a recepção da obra desses dois mestres conduzem a perceber paralelismos e convergências entre ambos. No entanto, os modernos, grupo ao qual Villa-Lobos se ligou, recusavam Carlos Gomes como “passadista”, e não reconheciam nele qualquer legitimidade “brasileira”. Essa aula tentará mostrar o quanto esses movimentos de aproximação e de afastamento permitem compreender aspectos cruciais dos constructos nacionalistas que, atravessando as rupturas, mais aparentes que verdadeiras, permanecem não só como força de invenção artística, mas ainda de ficções ideológicas.

 

– Villa-Lobos e a música popular, com Paulo Aragão (arranjador e pesquisador)

A presença da música popular urbana do Rio de Janeiro é uma constante na obra de Heitor Villa-Lobos. Por outro lado, ele marcou profundamente a obra dos principais compositores da música popular brasileira do século XX. Essas inter-relações serão discutidas por meio de uma audição comentada. Serão analisados diversos excertos de peças de Villa-Lobos em que a presença popular se evidencia, seja em citações literais de obras de compositores como Ernesto Nazareth e Anacleto de Medeiros, seja em melodias ou desenhos rítmicos notadamente inspirados em recursos típicos do ambiente popular. Serão ouvidos trechos de alguns choros, quartetos de cordas e peças de música de câmara de Villa-Lobos, e será discutida a maneira como o compositor utilizava esse material musical.

 

Capa de Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade, 1920 Acervo IMS, coleção Carlos Drummond de Andrade

 

06/09 – ARTES PLÁSTICAS

 

–  Ambições e limites do projeto modernista nas artes plásticas, com Carlos Zílio (artista plástico).

A aula abordará o modernismo nas artes plásticas, situando seus principais objetivos, como a construção de uma arte capaz de se demarcar no conjunto da produção internacional pelo que seria sua dimensão de brasilidade. Nesse sentido, serão estabelecidos referenciais teóricos para a compreensão dessa questão no âmbito da história da arte. Tendo em vista o problema da identidade brasileira e as conotações que o seu significado tomou no período compreendido entre 1922 e 1945, serão analisadas as três possibilidades elaboradas para essa operação de brasilidade por meio das obras de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Portinari. Por fim, serão pensadas as ambições e as possibilidades do modernismo como projeto de afirmação cultural brasileiro.

 

– A originalidade do concretismo carioca, com Luiz Camillo Osório (crítico de arte e professor do Departamento de Filosofia da PUC–Rio).

A aula discutirá o momento de formação do grupo concreto carioca, ainda no final da década de 1940, e sua contribuição na constituição de uma segunda modernidade brasileira. Serão destacadas duas características determinantes: o espaço de encontro do grupo inicial — constituído por Almir Mavigner, Abraham Palatnik, Ivan Serpa e Mário Pedrosa —, no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, e a influência indireta de Alexander Calder, principalmente por meio das críticas de Mário Pedrosa. Por um lado, o embate com a potência expressiva crua dos internos obrigava os jovens artistas a reverem procedimentos poéticos, descolados das convenções tradicionais. Por outro, pelos móbiles de Calder, assumia-se a forma plástica como um ativador lúdico do olhar, o que redefinia o modo de ser do espectador. A partir dessas duas redefinições, preparou-se o terreno para a fertilização da novidade neoconcreta no final da década seguinte.

 

13/09 – ARQUITETURA

 

–  A “guerra-santa” da arquitetura, com Roberto Conduru (professor de história e teoria da arte no Instituto de Artes da UERJ).

A aula abordará a arquitetura entre as décadas de 1920 e 1940, quando vigorou, no Brasil, uma pluralidade de teorias e formas, variando desde a arquitetura de cunho acadêmico, o dito ecletismo, e sua renovação, o movimento em prol de uma arquitetura tradicional brasileira, mais conhecido como neocolonial, até os desdobramentos locais das vanguardas artísticas e do movimento moderno. Essas divergências, formuladas por meio de textos, exposições, projetos e obras arquitetônicas, geraram intensos embates entre os campos e mesmo dentro deles. Serão destacados, nesse encontro, nomes como José Marianno Filho, Gregori Warchavchik, Lucio Costa, Rino Levi, Luiz Nunes e Oscar Niemeyer, que estiveram à frente de disputas travadas tanto pelo controle dos espaços institucionais quanto pelo domínio na configuração de valores como tradição, moderno e nacional. Processo que acabou reconfigurando a paisagem urbana, assim como o ensino, a crítica e a história da arquitetura no Brasil.

 

– De Pampulha a Brasilia – versões e inversões da arquitetura moderna no Brasil, com Ana Luiza Nobre (arquiteta, professora do curso de arquitetura e urbanismo da PUC-Rio).

A aula será uma introdução aos caminhos tomados pela arquitetura no Brasil após a construção do Ministério da Educação e Saúde, com ênfase no imediato pós-Segunda Guerra, justamente o período entre a implantação do conjunto da Pampulha, projetado por Oscar Niemeyer em Belo Horizonte, nos anos 1940, e a construção de Brasília, inaugurada em 1960, segundo o Plano Piloto de Lucio Costa. Será feita uma apresentação dos projetos e das obras mais significativos do período — destacando-se a atuação decisiva de Affonso Eduardo Reidy, Sergio Bernardes e os irmãos MM Roberto —, e serão abordadas suas eventuais relações com o contexto internacional.

 

20/09 – O MODERNO DEPOIS DO MODERNISMO

 

–  A Tropicália e a refundação do modernismo brasileiro, com Frederico Coelho (pesquisador, ensaísta e professor de literatura e artes cênicas da PUC–Rio)

A partir das principais obras e declarações de artistas e intelectuais ligados ao movimento tropicalista de 1967-1968, a aula analisará a presença fundamental dos escritos de autores modernistas — especificamente Oswald de Andrade e, em menor medida, Mário de Andrade — na formulação das práticas e das ideias de músicos, cineastas, escritores e artistas visuais do período abordado. Ao apresentarmos a trajetória do pensamento modernista entre as movimentações culturais brasileiras que deságuam na Tropicália, apontaremos as diferentes apropriações do pensamento antropofágico de Oswald e sua difusão renovadora e inventiva por uma cultura urbana de massas em franca expansão no período do regime militar.

 

– Pós-moderno e pós-modernismo em questão, com Evando Nascimento (professor universitário, pesquisador e escritor).

Decorridas três décadas da publicação do livro A condição pós-moderna, de Jean-François Lyotard, é importante rever em parte as discussões que possibilitaram o surgimento de um novo campo de discussões nomeado como “pós-moderno”. Ao mesmo tempo, importa fazer uma comparação com o “pós-modernismo”, categoria que se refere mais explicitamente ao modernismo histórico, ou seja, aquele que emergiu em diversos países a partir das primeiras vanguardas do século XX. Trata-se de uma apresentação geral do problema, com uma visada teórica e crítica. Do ponto de vista teórico, serão referidos nomes como os de Lyotard, Linda Huntcheon e Octavio Paz. Do ponto de vista crítico, serão discutidos os trabalhos de Hélio Oiticica e de Andy Warhol (artes plásticas), de João Gilberto Noll e de Ana Cristina Cesar (literatura) e de Wim Wenders e de Wong Kar-Wai (cinema).

 

CURSO “MODERNISMO E MODERNIDADES”

 

INSCRIÇÕES: a partir do dia 2 de agosto, na recepção do IMS-RJ

DATAS DO CURSO: de 23 de agosto a 20 de setembro (sempre às quintas-feiras, duas aulas por dia)

HORÁRIO: das 19h às 21h

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro

Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea

Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

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