Há 20 anos no mercado carioca de arquitetura, Márcia Müller é sinônimo de simplicidade e elegância. Seus projetos são ao mesmo tempo ousados e atemporais. Nas residências, lojas e restaurantes que projeta, Márcia alia conforto, funcionalidade e sustentabilidade – uma palavra que está cada vez mais presente em seu discurso e nos projetos que assina. Nesta entrevista, Müller diz que os arquitetos têm que ser menos egóticos e mais preocupados com o Planeta em que vivem.

RD: Quais projetos você está tirando do forno?
M.M: Estou entregando dois apartamentos pequenos no Leblon, na Timóteo da Costa. Um de 110 metros quadrados, de uma pessoa cujos filhos estão saindo de casa, e outro de 130, de um jovem casal ainda sem filhos.

RD: Como foram as reformas? Você derrubou muitas paredes?
M.M: Olha, quem está mais voltado para as questões modernas mudou totalmente esse enfoque. Hoje, creio que a gente tenha que pensar muito mais em adaptar do que derrubar. Estão na ordem do dia questões como sustentabilidade, reciclagem, ecologia. Trinta por cento da poluição mundial vêm da construção civil. Acho que nós arquitetos temos que ter consciência disso. Temos que ter o olhar do aproveitamento. Não é o Planeta que está em risco. É a natureza do próprio homem. E o homem tem que ter essa consciência. Vejo profissionais botando casas inteiras abaixo desnecessariamente. Por que não aproveitar o que já existe? Não existe mais projeto autoral. Está aí Lavoisier (químico francês mundialmente conhecido, autor da frase “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”).

RD: Você acha que o trabalho do arquiteto não é autoral?
M.M: Acho. Acho que as pessoas têm que ser menos egóticas. A tentativa de deixar sua impressão pode significar menos qualidade de vida. Acho que temos que pensar em construções mais palpáveis, mais elegantes, do que tentar deixar grandes inovações. Tudo já foi criado. A não ser, é claro, que se trate de um terreno livre.

RD: Como você faz para imprimir esse conceito de sustentabilidade em seus projetos?
M.M: Procuro aproveitar o que já existe de memória naquele lugar. Uso materiais como madeira de demolição, materiais sustentáveis. Faço parcerias com profissionais que tenham essa mesma consciência, como a artista plástica Mucki, por exemplo. Uso muito os tecidos pintados à mão da Mucki. Ela tem um projeto social superbacana. Essa é a tendência: valorizar as identidades regionais, a reciclagem de materiais, o aproveitamento do plástico. Vou há uns cinco anos à Feira de Milão – essa é a tendência.