Cheio de personalidade e intensidade no que faz, o arquiteto Adriano Amado não tem medo de ser ousado. “Não faço parte deste mundo que acredita que ‘menos é mais’. Gosto de misturar, compor, ousar e mesclar estilos de culturas diferentes em suas várias épocas, pois procuro ser um criador de climas, dando aos meus projetos sempre um ar dramático, de cenários inusitados”, afirma ele em entrevista ao Radar Decoração. Apaixonado pela profissão, ele conta sua trajetória e fala dos projetos recentes.

 

RD: Como a arquitetura entrou na sua vida?

A.A: Desde que me entendo por gente me vejo e sou visto por toda minha família e amigos como arquiteto. Além da minha vocação notória, meus pais, tios e primos eram imperativos em afirmar “ele é um arquiteto!!!”. Tentei até fugir disto em tempos de adolescência, almejando independência financeira, tentando uma carreira de comissário de bordo. Hoje poderia estar na Varig se o meu pai não batesse o pé afirmando que somente concordaria se eu me matriculasse também em arquitetura no vestibular do Instituto Metodista Bennett. Meus pais foram verdadeiras vítimas de minhas primárias criações, levando meus devaneios às últimas consequências, pois suas casas foram meus verdadeiros laboratórios. Tempos depois outros parentes também aderiram a este empenho e foi assim que meus primeiros sentimentos estéticos foram postos em práticas. E se não fosse arquiteto, seria imperativamente designer de automóveis, minha segunda fixação.

 

RD: Em seu site, você afirma que não se prende a um estilo. O ecletismo é então a marca do seu trabalho? Como você define que estilos trabalhar em cada projeto?

A.A: Eu admiro o período moderno de boa qualidade e tenho maior paixão pelo clássico, mas não meramente reproduzido. Dele aprendi o sentido da proporção, dos materiais e de todos os estilos.  Tendo a sorte de ter tido a casa Ayres como grande escola, loja que criava e fabricava móveis de estilo com tradição de 80 anos e reinava entre a nata das famílias abastadas e grandes decoradores até os anos 90, pude desenvolver vários trabalhos como designer desta empresa e conviver aprendendo com os arquitetos e decoradores tops que já atuavam no mercado. Aprendi que um grande arquiteto que lida com o mercado de interiores tem que sabem misturar tudo sem medo, causando impactos inusitados e fora do convencional. Para isso, temos que ter muita bagagem em estilos e permanecer de olhos abertos para tudo que possa nos acrescentar. O que define o meu estilo em cada projeto são os sonhos, necessidades, personalidade e bagagem de cada cliente conciliados com esta minha jornada criativa.

 

RD: O que te inspira para o trabalho?

A.A: Sem intenção de discriminar outros profissionais, não faço parte deste mundo que acredita que “menos é mais”, como uma regra estabelecida em criações de ambientes frios , vazios e sem uma história para contar.  Gosto de misturar, compor, ousar e mesclar estilos de culturas diferentes em suas várias épocas, pois procuro ser um criador de climas, dando aos meus projetos sempre um ar dramático, de cenários inusitados. Mesclar elementos distintos evita que a casa fique parecendo um showroom. Para mim é imperativo, aconchegante e inusitado! É fundamental saber ouvir e interpretar as vontades do cliente, que nos procura e deposita confiança. Temos que interpretar gostos, sonhos e variedades destas pessoas, mantendo sua história de vida, para que assim mantenha personalidade e estilo próprio. Essa história só sobrevive por conta dos símbolos que tornam explícitos as paixões e trajetórias do cliente, pois temos que vê-lo em sua melhor condição. Não acredito em receita pronta, pois o que vale é o toque pessoal, com harmonia nas cores, texturas e a forma de cada um. Isto simplesmente é ter atitude.

 

RD: Quais os projetos que entregou recentemente?

A.A: Além de vários projetos residenciais, o que tem agradado muito nas últimas semanas é o meu Loft Urbano, feito para a última mostra Artefacto. Já tive convite até mesmo para fazer parte do lançamento da nova loja Artefacto Beach&Country de São Paulo, em abril.

 

RD: Que projetos está fazendo no momento? Algum que curte em especial?

A.A: Vários projetos residenciais entre o Rio, Angra e Juiz de Fora. Destaco o apartamento para hóspedes no Leblon da minha amiga Bethy Lagardere, no qual tenho uma pequena missão: decorá-lo com várias peças e móveis de seu grande acervo particular, guardadas em três depósitos, vindas de cidades diferentes, como Paris, Rio e Salvador. Trata-se de uma profusão de estilos e coisas inusitadas bem ao estilo ímpar de madame Bethy. Isto é o que amo fazer: brincar com o que já existe e fazer uma sinfonia com a história do cliente. Os únicos fornecedores permitidos além deste acervo foram o antiquário Arnaldo Danemberg e a Beach&Country.

 

RD: Algum projeto que sonha em fazer e nunca fez?

A.A: Sim. Um hotel boutique de pequena população. Trata-se de um sonho e eu sei que farei.

 

RD: Quais você acredita serem as peculiaridades do mercado carioca? Qual o papel ou importância do Rio dentro do mercado brasileiro de arquitetura e decoração? O que falta nesse mercado?

A.A: Como carioca, eu posso falar. O Rio possui um estilo pessoal e intransferível, invejado e cobiçado por todos. Infelizmente muita gente fala mal do Rio, mas todos querem estar aqui. Grandes arquitetos e designers cariocas consagrados estão aí para afirmar isto. O Rio é um estilo de vida e com isto manifesta este estilo de design e arquitetura de que o mundo quer fazer parte. Principalmente agora que voltou a ser a bola da vez e está recebendo todos estes investimentos que vão causar efeitos positivos por muitos anos. Para mim, o que falta no mercado é que os empresários tenham vontade de fornecer produtos de excelência e mais orgulho daquilo que se propõem a fornecer. Existem muitos fornecedores que se preocupam em sempre copiar o outro e isto nos leva a uma monotonia do mercado. Mas o Rio é sempre o Rio de Janeiro!

 

RD: Como é a sua casa? O que você gosta de ter nela?

A.A: Minha casa é sem compromissos algum com rótulos de modismos e nem de ser revolucionária, embora eu admire isto. Meu coração, meus sentimentos e minhas inspirações momentâneas me levaram a desenvolvê-la para acomodar tudo que amo, como livros, coleções de obeliscos, chinoaserie, móveis e obras antigas bem como contemporâneas. É um ambiente muito aconchegante, de iluminação dramática para destacar tudo que adoro e quero perto de mim. A minha casa é Adriano Amado!

 

RD: Para você, o que não pode faltar a um bom arquiteto?

A.A: Investir em alimentar a criatividade e a vontade de crescer, transformando sempre a sua maturidade profissional, além de ser faminto por saber e aprender mais e mais a cada dia. Estudar sobre todos os estilos e tentar dominá-los com maestria, sempre surpreendendo seu cliente. E sonhos… sem eles não somos nada e por isto temos que ter muitos e lutar por eles!

 

Foto by Fabian