Denise Cadore tem fascínio pela Arquitetura desde criança e trabalha estudando a teoria da disciplina para colocar em prática seus projetos, que afirma criar para a vida. “O que fica é o que se vivencia nos ambientes que projetamos. É depois que vamos embora que nossa obra toma sua verdadeira forma. Aprendi a criar os projetos para a vida”, diz ela em entrevista ao Radar Decoração.

 

RD: Por que você escolheu essa profissão?
D.C: Pelo fascínio que tenho desde criança com as sensações que os espaços e construções são capazes de gerar. Plantas baixas e fachadas figuraram entre os meus primeiros desenhos e também desde cedo me interessei por arte. Acredito que o fato de ter morado em Brasília durante parte da minha infância, sob o impacto da obra de Oscar Niemeyer, tenha aguçado meu interesse pela arquitetura.

 

RD: Como você define seu estilo e como foi o caminho que percorreu para desenvolvê-lo?
D.C: Tenho forte influência modernista. Aprecio as linhas retas e puras. O projeto de luminotécnica segue a mesma linha, com poucos pontos aparentes, luz difusa e foco nos detalhes e obras de arte. Desde os primeiros traços defino também a paleta de cores que será seguida, o que norteia a escolha desde os materiais de revestimento até as cortinas e os estofados. Para o layout proponho espaços amplos, integrados e funcionais. Penso no todo, no conjunto, para depois ater-me aos detalhes, buscando sempre uma linguagem uniforme e harmônica. Sou adepta do estudo da teoria da arquitetura e foi através destes conceitos que desenvolvi meu “manifesto” projetual.

 

RD: O que você considera essencial em qualquer bom projeto de interiores?
D.C: Um conceito norteador, que deverá ser seguido pelo cliente e equipe de arquitetura e interiores em todas as definições. O projeto não pode ser perder em referências pontuais, materiais aleatórios.

 

RD: Qual a importância de materiais sustentáveis no seu trabalho?
D.C: Especificar sustentavelmente é o maior desafio que encontro hoje no exercício da minha profissão. Tenho a grande responsabilidade de indicar materiais e sistemas construtivos que denigram o mínimo os nossos recursos naturais, porém percebo um certo relativismo sobre o que é ser ou não sustentável. Por exemplo: Produzir com matéria prima reciclada, mas consumir muita energia na produção de um material, é ou não sustentável? Em princípio não, mas o fabricante pode apresentar o produto gerado por esse processo como ecologicamente correto valendo-se apenas do fato de ser reciclado. Um consultor Leed, figura já comum nos grandes empreendimentos, é um custo alto para obras residenciais. Por mais que façamos pesquisas, sempre fica essa interrogação sobre o que existe no mercado. Uma “etiquetagem” de materiais, como existe de edificações hoje, nos ajudaria muito. Os materiais naturais são os meus preferidos e muitos têm se provado sustentáveis por serem renováveis, como as madeiras certificadas, por exemplo.

 

RD: De onde vem a sua inspiração?
D.C: Das expressões artísticas em geral: moda, artes plásticas, design, arte urbana… Procuro apurar minha sensibilidade a fim de captar as referências mais sutis presentes no nosso cotidiano e transformá-las em formas, cores e sensações.

 

RD: Quais são suas cores favoritas no décor?
D.C: Para os projetos que pedem cores quentes, gosto dos tons terrosos. Quando o ambiente caminha para os tons frios, verdes sobre base acinzentada.  Entendo a resposta às cores como pessoal. Busco identificar através das referências que apresento ao cliente se os tons que mais lhe agradam são os quentes ou os frios. Defino então a base neutra: quente (beges) ou fria (cinzas). As cores a serem trabalhadas, que acompanham a temperatura da base, limito a quatro, no máximo. Buscamos a partir daí a variaçãos de tons.

 

RD: Forma, função ou emoção?
D.C: Emoção através da forma e da função.

 

RD: Quais você acredita serem as peculiaridades do mercado carioca? O que falta nele?
D.C: Diversidade e liberdade. É um grande laboratório de possibilidades estéticas. A descontração e cabeça aberta do carioca permitem isso e resultam em criações inovadoras por parte de arquitetos e designers. O que falta advém da sua peculiaridade: fundamentação. Vemos muitas gratuidades e resultados desconexos.

 

RD: Como é a sua casa? O que você gosta de ter nela?
D.C: Alegre, com muita liberdade para meus filhos brincarem (eles ganharam uma parede para colorir à vontade, na sala). Plantas e registros dos momentos felizes, que mantenho em porta-retratos. Para meus convidados gosto de expor os ainda poucos trabalhos artísticos que adquiri até hoje.

 

RD: Que projetos entregou recentemente que gostaria de destacar?
D.C: O café do recém inaugurado Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) e um edifício sede de empresa, em Jacarepaguá.

 

RD: Que projetos está fazendo atualmente? Algum que curte em especial?
D.C: Uma residência no Condomínio Alphaville, na Barra da Tijuca, onde a área de lazer dispõe de uma pista de boliche e piscina com laterais em vidro. Também estamos desenvolvendo o projeto de uma clínica Odontológica de alto padrão e um apartamento em Paris, que estamos decorando à distância.

 

RD: Algum projeto que sonha em fazer e nunca fez?
D.C: Interiores de embarcações. Espero ansiosamente por uma oportunidade.

 

RD: Quem são seus designers de mobiliário favoritos?
D.C: Patricia Urquiola, Ingá Sempé, Zanini de Zanine, Jader Almeida, Ingo Maurer…

 

RD: Qual o maior aprendizado nos anos de profissão?
D.C: O que fica é o que se vivencia nos ambientes que projetamos. É depois que vamos embora que nossa obra toma sua verdadeira forma. Aprendi a criar os projetos para a vida.

Foto: Helmut Norbert Hossmann Junior