Quando se fala em arquitetura comercial fica difícil não pensar no nome da carioca Bel Lobo. Ela é referência no ramo há algum tempo, mas de uns anos para cá seus projetos para lojas e restaurantes estão se multiplicando numa velocidade impressionante. Para usar uma expressão bem contemporânea, o escritório de Bel (com o marido Bob) está bombando.

Para se ter uma ideia, entre novembro deste ano e janeiro de 2012, eles estão entregando nada menos que 59 lojas dentro e fora do Rio de Janeiro.

Dentre as mais recentes, destaca-se a Schutz, no shopping Leblon. “Nesse caso partimos de um conceito que já existia, criado pelo diretor de arte Giovani Bianco (ele fez fama em Milão e vive hoje em Nova York): chão branco, teto preto, sapatos expostos como se fossem manequins na passarela. Como a marca cresceu e foi parar nos shoppings (antes havia grandes lojas de rua no Rio e em São Paulo), tivemos que redimensionar os projetos para espaços bem menores (de 300 metros quadrados para 80, às vezes 60 metros quadrados) e comportar a mesma quantidade de sapatos. Redesenhamos os cubos de madeira, colocamos caixas nas paredes, foi uma delícia o trabalho”, conta Bel. E o resultado é incrível, basta observar as fotos desta reportagem.

A lista de marcas abraçadas pelo escritório de Bel e Bob é extensa mas vale a pena comentar: Cantão, Brigite’s, Farm, Fom, Jelly, Krishna, Lisht, Loungerie, Maria Filó, Puket, QVizu Land, Richads, Salinas, Schutz, Selaria e Shoulder. Como algumas estão inaugurando mais de uma loja simultanamente, o que é o caso da Shoulder, com duas em São Paulo, uma em Mato Grosso do Sul, uma em Salvador e outra em Ipanema, no total chega-se a 59 lojas em três meses. Bel fica a frente dos novos projetos, enquanto Bob cuida exclusivamente das filiais da Richard’s, a pioneira.

“Adoro fazer projeto comercial. É mais lúdico, mais rápido, pode pirar mais, ousar mais. Trabalha-se muito com iluminação. Aprende-se muito, o tempo todo”, diz Bel.

O mais interessante é saber como essa história começou. “Ainda na faculdade resolvi construir um atelier em Santa Teresa com uns amigos. Construir mesmo, desde a fundação. Todos contavam com o dinheiro dos pais, exceto eu. Eu tinha algum dinheiro que havia ganho em um programa de televisão representando a faculdade. Quando a grana acabou tive que me virar e me candidatei para trabalhar de vendedora na Richard’s. Não sabia vender, empurrar nada para as pessoas, mas era boa de composição. Combinava bem as peças de roupa e estava sempre mudando móveis de lugar, mexendo na iluminação. Fiquei trabalhando lá durante um ano e meio e, quando me formei, saí da Richard’s. Depois me convidaram para voltar como arquiteta da loja. E aí foi assim: ‘Nossa, você que fez a Richard’s?, quero que faça minha loja também’”, conta Bel, com a simplicidade de uma novata.

E como fazer para que um projeto não fique parecido com outro? Como convencer o cliente de que não é legal repetir uma ideia só porque ela deu certo? “Quando chegam pedindo para copiar algum projeto digo logo que é pra procurar outro escritório”, conta Bel, com humor e simpatia. “Caramba, querem que a gente copie o nosso próprio trabalho?”, brinca.

 

Esse foi um problema que nem de longe tiveram ao fazer o projeto do restaurante Bazzar, em Ipanema. “É raro o cliente dizer: faz como você quiser. E foi o que os donos do Bazzar falaram. Amei. É um projeto xodó”, diz. O restaurante é de fato a cara da arquiteta, com paredes em cimento, cadeiras e mesas de madeira (desenhadas por ela). Tudo muito clean, simples e bonito.

O avesso do briefing do Bazzar foi o da loja Loungerie (entre novembro e janeiro próximo a marca está abrindo pontos em São Paulo, Belo Horizonte, Campinas e Brasília). A dona da Loungerie queria onça nas paredes. Para Bel, um senhor desafio. “Digo sempre que o grande mérito nesse projeto foi ter ouvido a cliente, as incríveis maluquices dela, que queria tirar o ar elegante da loja e deixá-la com um ar bem mais ousado. Quando terminei a loja do Shopping Leblon pensei: ‘meu nome vai pra lama…’, mas quando colocaram todas as lingeries, os enfeites, os cheiros, amei, vi que estava tudo certo. Cria bem o desejo que a proprietária queria. Tudo pode, só tem que ser bem fechado, tem que ter coragem para ousar, mais ou menos não dá. Ao infinito e além”.