Eles são o casal 20 da arquitetura carioca. Simpáticos, antenados, talentosos, Fernanda Bessone e Raul Moras estão casados há 17 anos e trabalham juntos desde os tempos da faculdade. Em 1997, abriram o escritório MorasBessone Arquitetos, que continua funcionando a pleno vapor. São muitos os projetos que os dois desenvolvem juntinhos, num entrosamento afinadíssimo. “Chega a ser engraçado. Um dia um operário me pediu para executar um serviço de uma maneira e eu disse que era melhor fazer de outra. Não satisfeito, ele fez a mesma pergunta para a Fernanda para ver se a resposta ia ser outra e ela terminou dizendo a mesma coisa que eu. E olha que nem tínhamos conversado sobre aquilo. A gente pensa muito parecido”, conta Raul. Sintonia total que, ano passado, rendeu elogios rasgados ao casal na sua terceira participação no Casa Cor. Eles criaram uma dispensa incrível, toda automatizada. Um dos espaços mais visitados do evento. Na entrevista abaixo, o Radar Decoração conta um pouco da história dos dois. Quem respondeu as perguntas foi a Fernanda, mas poderia ter sido o Raul, tamanha é a integração da dupla.


 

 

RD: Por que vocês escolheram essa profissão?
F.B: Escolhi que faria Arquitetura durante o segundo grau. Sempre gostei de casas, de espaços, desde pequena. Não havia outros arquitetos na minha família. Fui a única que fiz essa escolha. Aliás, isso também aconteceu com o Raul, meu sócio e marido. Escolhi porque as minhas áreas de maior interesse estavam lá: história da arte (minha mãe é historiadora!), desenhos técnicos e geométricos e contato com pessoas. Fui meio na intuição. Fizemos (conheci o Raul lá) a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. Ainda durante o curso tivemos uma oportunidade de trabalharmos em um projeto nosso, uma reforma de uma casa no Itanhangá. Foi um desafio incrível. Desde então temos o nosso proprio escritório. Da Arquitetura e Urbanismo para a Arquitetura de Interiores foi um pulo. É um trabalho em que você troca ideias com as pessoas, com muita interação com quem vai habitar aquele local. Você tem um retorno muito rápido do seu trabalho, se ficou bom, se o cliente ficou feliz. Isso é muito bom !


 

RD: Que caminhos percorreram para desenvolver seu estilo?
F.B: O nosso estilo é mutante. A gente gosta muito dos desafios que a própria arquitetura nos proporciona: um pilar no meio do caminho, uma planta que parece insolúvel… a transformação do espaço é um grande barato. A gente tem muita preocupação em respeitar o espaço e os clientes. Um piso lindo que encontramos em um apartamento antigo? Com certeza vai permanecer! Uma parede, que ao ser descascada fica com aspecto incrível? Vai fazer parte da decoração! Respeitar a arquitetura existente e a personalidade do cliente é fundamental. Ele é quem vai morar na casa. Ele tem uma história de vida que precisa ser respeitada. Esse é sempre o ponto de partida. Gostamos muito da mistura do novo com o antigo. Da história de cada um com novidades. Isso acabou “ficando na moda”, uma vez que representa a reciclagem de materiais etc, mas pra gente é muito mais do que isso. É fundamental esse respeito.


 

RD: De onde vem a inspiração?
F.B: As nossas inspirações vêm de viagens (adoramos!), passeios, livros, filmes, exposições, encontro com os amigos…..tudo o que a gente faz quando não está trabalhando!


 

RD: Como você se informa sobre o mercado de decoração?
F.B: Temos assinatura de algumas revistas e gostamos de variar: Casa Claudia, Casa Vogue, Arquitetura e Construção, Kaza. Compramos revistas de fora também, periodicamente. Recebemos também a Summa e Wallpaper. Visitamos sites variados, em função do interesse naquele momento. Na TV é mais por diversão e curiosidade: assistimos Extreme Makeover e alguns programas de decoração variados. Assistimos também a alguns seriados. Atualmente são The Good Wife e House, além de Friends e Seinfeld, nas reprises avulsas. Temos, também, um grupo de amigos arquitetos. Nos encontramos com frequência e conversamos sobre tudo isso e muito mais!


 

RD: Quais vocês acreditam serem as peculiaridades do mercado carioca? Qual o papel ou importância do Rio dentro do mercado brasileiro de arquitetura e decoração?
F.B: O mercado carioca é mais informal. O trato é mais pessoal, isso faz com que o projeto acabe ficando mais “leve” também, no nosso entendimento. O Rio, apesar de não ser o maior mercado do país, é uma cidade que dita tendências. Isso faz com que o público olhe o Rio com carinho e desejo. O Rio virou um grande polo de construção nesse momento. Isso está trazendo para a cidade profissionais do mundo todo e investimentos de todos os lados. Esperamos que o Rio consiga aproveitar tudo isso para o bem e que a cidade ganhe muitos ótimos espaços, assim desejamos.  


 

RD: O que falta melhorar na cidade na sua área?
F.B: O que falta ao Rio é um pouco mais de variedade de oferta de produtos, mas está melhorando. Os investimentos estão crescendo na nossa área. Falta também formação e treinamento profissional de qualidade. Temos visto que, como o mercado carioca tem crescido, tem havido interesse de profissionais de outras áreas que querem “tirar uma casquinha”, mas não tem a qualificação necessária. O próprio mercado se encarregará de fazer essa separação a médio prazo, em função das qualidades de cada um.


 

RD: Qual o estilo da sua casa? O que vocês gostam de ter nela?
F.B: A nossa casa é tudo isso que contamos até agora. Moramos em um edifício de 1948! Compramos o apartamento em péssimo estado e mãos à obra! Mantivemos o maravilhoso piso de peroba do campo com ébano, fizemos um tratamento na madeira que a deixa com cara de madeira crua. Ficou com ares de madeira encerada, só que muito mais protegida e sem a necessidade de manutenção. As portas são da mesma madeira, maciças! Retiramos camadas e camadas de tinta e deixamos na madeira original. Abrimos a cozinha para a sala com armários modernos da Roma Mobili. O pilar no meio da sala virou um painel com nichos iluminados! A parede de tijolos maciços ficou descascada mesmo e ainda ganhou iluminação para valorizar. Os móveis são de origens das mais variadas: mesa Artefacto, cadeiras Fernando Jaegger, sofá Finish, espelho da Novo Ambiente, poltrona do avô, lustre art deco da tia avó, cofre antigo do avô como mesinha de canto…enfim, tudo junto e misturado. Gostamos de ter as nossas fotos, a nossa história, música o tempo todo. É a mistura do apartamento antigo com todas as suas vantagens de pé direito alto, ventilação cruzada, muita luz, madeiras incríveis…com as vantagens da modernidade: ar condicionado adequado, eficiente e bem acomodado no espaço, fiação nova para computadores e afins. Não adianta a casa ser toda bonitinha se o conteúdo está deteriorado. Adoramos iluminações variadas. Temos diversos pontos de luz na sala para fazer combinações em função da situação (festa, leitura, jantar, descanso). É muito divertida essa brincadeira.


 

RD: Que projetos mais recentes vocês destacariam?
F.B: Estamos atualmente desenvolvendo, entre outros projetos, dois andares para um fundo de previdência com uma vista incrível da Baia de Guanabara e uma casa na Urca, que é um projeto muito especial. O melhor trabalho é sempre o que você acabou de fazer! É o que esta mais fresquinho na cabeça! Temos muitos clientes com residências, que têm necessidades muito particulares, é tudo feito sob medida para cada um. Os projetos em que você tem mais liberdade de criação são sempre os mais instigantes. Os nossos clientes viram amigos e passamos a ser arquitetos da família ou da empresa. É sempre muito gratificante ver o cliente retornar para fazer um novo projeto. É muito interessante também quando o cliente é muito envolvido com o processo: um gourmet que pede uma cozinha toda especial, um bibliófilo que quer uma biblioteca, um campeão de sinuca que quer uma sala nova de sinuca em casa! Todas são experiências incríveis, muito enriquecedoras pessoal e profissionalmente.